Para o estudioso da obra do psicólogo Carl G. Jung o autor James Hillman, acima de tudo alma é entendida como “uma perspectiva, ao contrário de uma substância. Um ponto de vista sobre as coisas, mas do que uma coisa em si.” (HILLMAN, 1991, p. 40). Ele identifica alma diretamente com ANIMA, e procura desfazer a ilusão de que ANIMA está em nós, ao invés de nós estarmos na ANIMA. Hillman diz que porque tomamos a ANIMA personalissimamente, ou porque ela engana o ego, desta forma, perdemos o significado mais amplo da alma. Esse significado mais amplo constela a alma como uma perspectiva genuinamente psicológica: esse IN ANIMA, nos diz Jung, ser humano é ser na alma desde o começo.
Podemos ver que ANIMA, a alma está por tudo e em tudo, não só na interioridade feminina do homem. Está no homem e na mulher. ANIMA pertence a todas as coisas, exatamente como a possibilidade de interioridade de todas as coisas. ANIMA refere-se numa só palavra a interioridade. Hillman nos faz enxergar os arquétipos como as estruturas básicas da imaginação e nos diz que a natureza fundamental dos arquétipos só é acessível à imaginação, e apresenta-se como imagem. Se o conceito básico da psicologia arquetípica é então o arquétipo, sua área de atuação focaliza-se na imagem.
Encontramos a psicologia arquetípica voltada para o trabalho com a imaginação focada em ressuscitar nosso interesse pela capacidade espontânea da psique de criar imagens. Jung diz que “imagem é psique”, radicalizando a idéia de que a realidade psíquica é constituída de imagens. Desta forma, “ficar com a imagem” transformando-a numa regra básica no método da psicologia arquetípica. “Ficar com a imagem” irá influenciar todo o método terapêutico, especialmente no que toca a questão da interpretação.
As imagens psíquicas podem ser encaradas como fenômenos naturais e necessitam ser experimentadas. As imagens necessitam de relacionamento, não de explicação. No momento em que interpretamos transformamos o que era essencialmente natural em conceito, em linguagem conceitual, afastando-nos do fenômeno. Uma imagem é sempre mais abrangente, mais complexa, do que um conceito. As imagens são o meio através do qual toda a experiência se torna possível, em toda imagem há uma múltipla relação de significados, de disposições, de proposições presentes simultaneamente. Nossa incapacidade de experimentar e vivenciar a simultaneidade de significados de cada imagem vem da necessidade de transformá-la em histórias, em temporalidade.
Mas no reino do imaginário todos os processos que pertencem a uma imagem são inerentes a ela e, ao mesmo tempo, estão presentes em nossa alma através dos arquétipos. Portanto, alma é a metáfora-chave ou raiz metafórica, desta abordagem e indica na verdade aquilo de que se está falando. O que está por baixo, na direção vertical, na profundeza é alma. Alma refere-se à profundidade tem a ver com a profundeza de nós mesmos.
A depressão leva o sujeito necessariamente para baixo, para um aprofundamento em si mesmo. Diminui o ritmo, desacelera o intelecto, aproxima o horizonte. Talvez nada hoje em dia consiga para nós o que consegue a depressão, e por isso sua presença tão marcante: esforços da farmacologia à parte, na depressão somos lançados irremediavelmente no vale da alma.
A alma, no entanto, deve ser imaginada, não definida. É uma metáfora, e ao mesmo tempo um campo de experiências. Essa metáfora, além de tudo não intenciona a “cura da alma”, mas ao invés disso facilitar aquilo que Hillman sugere como cultivo da alma (soul making): o aprofundamento dos eventos em experiências.
Podemos nos aproximar um pouco mais do uso que a psicologia arquetípica faz da palavra alma contrastando-a com o seu oposto o espírito. Se a alma é aquilo que está no fundo nas profundezas, o espírito está nas alturas. O contraste serve para nos dizer que a análise não é uma ocupação espiritual. A alma nos remete aos sonhos, às imagens. O espírito nos conduz a iluminação e transcendência. Hillman diz: “O espírito está nos picos, a alma está os vales.”
A alma volta sempre às mesmas feridas para extrair delas novos significados; volta em busca de uma experiência renovada, mas na repetição, na circularidade, o ego é forçado a conscientizar-se de que há outra força governando a coisa toda. Há um aspecto ritual aqui, a circularidade, por fim, nos personaliza. Do ponto de vista da alma a repetição é uma maneira de nos tornarmos aquilo que somos.
Adaptado de artigo de Gustavo Barcellos - Anima 30 anos após Jung
Instituto Junguiano de São Paulo