Quando falamos em cooperação logo nos vêm à mente a imagem de um grupo de pessoas unidas e trabalhando por um ideal compartilhado, o que não deixa de ser extremamente válido e verdadeiro. Por outro lado se procurarmos expandir este conceito, procurando enquadrá-lo dentro de um paradigma holístico, poderíamos obter outra visão, a de um organismo forte e sadio, composto de diversos outros organismos, lutando por um único ideal que é a própria unidade e integralidade. Alguns grupos tem um potencial mágico de nos fazer sentir parte de algo maior de que nós mesmos, principalmente quando este conjunto de pessoas possuí um propósito nobre, claro, puro e verdadeiro.
Este sentimento provém na sua essência da genuína sensação de transcendência, que uma prática ligada a valores e propósitos afastados do ego e das aspirações individualistas pode proferir. A partir de experiências em que a transpessoalidade pode aflorar e se manifestar, individualistas podem romper com o véu do isolamento, desfazendo crenças e descontruindo padrões de percepções enraizados em visões arcaicas de mundo, nas quais ainda imperavam uma crença maior, de que a verdadeira felicidade e satisfação se encontravam nas realizações individuais e pessoais.
Hoje sabemos que estas crenças egoístas só construíram castelos de ilusões, contribuindo para a aquisição de um modo de vida moderno no qual nos sentimos solitários em meio a uma multidão. Talvez esta seja a maior contradição da modernidade, mas temos o dever e o direito de romper definitivamente com tais padrões insustentáveis. Falamos cada vez mais em sustentabilidade, porém ainda possuímos comportamentos e hábitos que não se sustentam mais! Não conseguimos perceber que nós devemos ser a mudança e a transformação que queremos ver no mundo, ou seja, qualquer mudança ou transformação em escala planetária só será possível, quando houver uma mudança mais significativa no padrão de consciência de toda a humanidade.
Assim, falando em cooperação percebemos que esta palavra carrega um significado amplo, e que também nos remete a um sentido de unidade, nos traz a lembrança ancestral de um tempo em que éramos todos uno neste planeta, interligados entre a nossa espécie através dos grupos primitivos, essenciais à nossa sobrevivência e preservação enquanto seres humanos. E também profundamente ligados e conectados com a terra, pois dela dependíamos e a ela nos resignávamos em atitude de respeito e louvação. Este sentido do sagrado na relação com a terra foi sendo profundamente alterado durante todos os milhares de anos de civilização, mas ainda hoje alguns grupos conseguem acessar, através do resgate e do estudo de tradições milenares e práticas ritualísticas, estados de consciência que na verdade residem nas profundezas do nosso próprio inconsciente coletivo.
Tais estados de consciência, nada mais são do que a sensação de paz e harmonia que provêm da noção de estar profundamente conectado a um todo maior, e do qual nos sentimos partes como células de um mesmo organismo. Assim sendo, a verdadeira realização e paz de espírito só podem ser alcançadas genuinamente, a partir desta visão, através de práticas coletivas que representem um bem maior do que a satisfação pessoal de seus próprios desejos. O trabalho da psicologia arquetípica é o de efetuar uma escavação arqueológica em nosso inconsciente, para dali suscitar as imagens carregadas de simbolismo que nos permitem entrar em contato com nossas potencialidades adormecidas.
Estas potencialidades estão ligadas a saberes ancestrais e intuitivos, que muitas vezes não conseguimos acessar. Mesmo quando acessamos através de lampejos de consciência, ou até mesmo em sonho, temos dificuldade para incorporá-los ao nosso dia a dia de forma efetiva, uma vez que o ritmo do cotidiano não nos permite pararmos para contemplar ou vislumbrar tais lampejos ou como costumamos chamar “insights”. Assim, isso rapidamente volta para o inconsciente novamente e fica guardado numa gaveta, até que uma situação seja capaz de nos sensibilizar para um aspecto humano adormecido, isso se manifesta através de uma forte emoção que muitas vezes nos arrebata, pois quase sempre não nos sentimos preparados, para enfrentar algumas questões tão naturais e humanas, como a morte, a perda ou o abandono.
É neste momento em que situações radicais como as tragédias que acompanhamos ultimamente despertam um profundo sentimento de solidariedade e cooperação. A pergunta que fica é: se existe este sentimento que emerge na coletividade em situações de desespero de uma forma tão arrebatadora que chega a nos emocionar, porque não conseguimos ainda aplicar este profundo potencial humano de cooperação e solidariedade, em ações sustentáveis de generosidade, gentileza, altruísmo e amor. O que se vê por todo lado é que cada um só quer pra si, sem perceber que a verdadeira vitória é coletiva e é de todos nós! Não faz sentido chegarmos ao topo sozinho, sem ter com quem compartilhar nossas vitórias e derrotas do dia a dia, afinal todos perdemos e ganhamos, somente porque ainda competimos.
Quando conseguirmos construir sociedades baseadas no princípio da cooperação, e abandonarmos o padrão da competição, todos seremos vitoriosos, não haverá melhores e piores, mas sim diferentes e únicos, pérolas preciosas de unicidade, todos seremos autênticos, pois entenderemos que na diferença é que reside o valor, e que na soma das diversidades que está a presença da unicidade maior da qual fazemos parte. Ter consciência do nosso lugar e importância, enquanto agente ativo e coletivo de transformação ambiental e social, se faz na medida em que somos capazes da alterar nossos padrões, a princípio de consciência, entendendo que toda mudança parte de dentro. Somente no vazio do silêncio é que podemos ouvir as coisas que precisam ser consertadas.
Até que possamos ver vingar nossas sementes de transformação, em outras palavras devemos dar o exemplo, e ser o melhor modelo que pudermos, a princípio para nós mesmos. Para assim, gerar um campo de transformação, abrindo caminho para as mudanças políticas, sociais e ambientais que queremos ver no mundo. É de dentro de nós mesmos que tudo parte, nas pequenas ações sustentáveis, primeiramente com nosso corpo, com nossa casa, nossa família, nossa sociedade e nosso planeta. Que este texto fique como um convite para alguns uns minutos de silêncio e reflexão, depois desta leitura relaxe um pouco e procure se focar naquilo que você quer ver mudando em sua vida. Procure colocar isso em prática sem cobrar tanto dos que estão à sua volta, se coloque receptivo ao novo e as mudanças que outros lhe propuserem, aceite alguns convites e faça diferente! É só uma sugestão! Um Forte abraço de paz e harmonia com o desejo de ter cooperado!

